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NOTAS SOLTAS, INVERNO

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by Seishin O sol parece não aquecer nesta manhã. Dirijo pelas estradas poeirentas e esburacadas desta terra. A luz solar do inverno me fascina. A resiliência das gramíneas põe de joelhos meu coração. Passando por esses caminhos, não canso de admirar a quantidade de flores possíveis no inverno brasileiro, especialmente espalhadas pelo campo, nascidas sem que ninguém as tenha semeado e, quase sempre, nem sequer pare para as apreciar. São flores do mato, em geral, pequenas e despretensiosas. Dentre elas, não sei o que dizer das flores-de-são-joão... Nos barrancos e pelas encostas do caminho, encontrei-as amarelas e temperadas de poeira. Parei para vê-las de perto, porque não estava seguro de que eram realmente elas. São cornetinhas apinhadas, de uma delicadeza tal e beleza humilde que não entendo como os passantes podem ignorá-las.      por todo o caminho suave ondular de cor  — florzinhas de inverno by Seishin capim de inverno   — sem som de vento ou palavra diz-m...

NOITE DE SÃO JOÃO

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  Imagem Pixabay   noite de São João — de repente as estrelas vêm brilhar no chão   som de acordeão — constelação de fogueiras ao redor da serra   dorme o sanfoneiro — o crepitar da fogueira pela noite adentro   Esses três haicais são variações do mesmo tema, tendo fogueiras como assunto, embora um deles traga em primeiro plano a noite de São João iluminada por elas. As tradicionais festas juninas se dão em pleno inverno brasileiro. A maior delas é a festa de São João, um santo católico muito popular, comemorado em todo o Brasil, especialmente no Nordeste do país. Nessas noites há diversos festejos, com danças folclóricas e deliciosas comidas típicas. O acordeão ou sanfona é um instrumento musical muito tradicional naquela região do Brasil, absolutamente imprescindível às danças de quadrilhas. Nesse tempo, as pessoas acendem fogueiras em torno das quais se dão folguedos e brincadeiras com fogos de artifício. Como a fogueira é uma das ma...

DIÁRIO (fragmento)

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DIÁRIO  (fragmento) O que faz um haicai ser haicai e não outra coisa?   Resposta possível, mas que apenas tangencia a questão: o sabor.   Há muita teoria sobre isso. Você mesmo escreveu linhas que não servem para nada. É como tentar exprimir os gostos de banana, manga, café, brócolis, uva, cachaça, água. Quem provou, sabe. Embora nem todos gostem de tudo ou precisem experimentar todas as coisas. As coisas, porém, são o que são.   Se a sua mente estiver vazia, talvez você encontre o haicai. Talvez nunca escreva um, mas saberá seu sabor quando o encontrar. Algo vai tocar seu coração.   Para quem faz disso um caminho de vida, o melhor se dá quando já não é importante escrever um bom haicai. Não queira escrever um bom haicai. Apenas escreva. E não tema o julgamento de ninguém. Faça tudo com humildade, sem pretensão.   Um haijin não pode ser orgulhoso. Se houver um fio de orgulho em seu coração, não conseguirá compor um haicai digno de consid...

O SOM DA CASCATA

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  Capa: Lilian Souza de Araújo O título deste livro foi extraído do verso secundário de um dos haicais de verão, aqui publicados. Em nota pessoal, para o referido haicai, escrevi naquela ocasião: “As folhas secas que vão se acumulando, ainda presas às bananeiras, têm o incrível som de água corrente, quando nelas sopra o vento do verão. Descobri isso hoje, 12 de janeiro de 2021, no nosso Eremitério de São José, em Piedade de Caratinga, Minas Gerais.” O vento de verão, no dicionário brasileiro de kigo “Natureza – Berço do Haicai”, de H. Masuda Goga e Teruko Oda, traduz-se nos verbetes “vento verde” (“vento não muito forte que sopra nos campos e regiões arborizadas, durante o verão; vento que parece brincar em meio à verde folhagem”) e “vento aromal” (“vento de verão que traz o cheiro da mata ou da terra; vento que cheira a capins, ervas ou gramíneas”). Quase todos os tercetos aqui enfeixados são inéditos, além de alguns já publicados na importante antologia “Lua de Outono” (Org....

O HAICAI JAPONÊS TRANSPLANTADO PARA O BRASIL - Juan Ryusuke Ishikawa

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(Sophia Hilmar - Pixabay) Para ler o artigo acesse o link: https://antoniofabiano.blogspot.com/2023/05/o-haicai-japones-transplantado-para-o.html  

QUANDO O ESPÍRITO ESTÁ EMBEBIDO DE HAIKAI...

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(Imagem Pixabay)   “Quando o espírito está embebido de haikai , o sentimento interior se funde com as coisas exteriores para determinar a forma do verso, e tão bem que o objeto é apreendido tal qual ele se apresenta, sem que a visão própria crie a menor divergência. Se o espírito, pelo contrário, não se depurou, a visão própria entra em ação e a pessoa tende a buscar a perfeição no arranjo das palavras. E isso constitui apenas a vulgaridade de um espírito que não se esforça para encontrar a verdade.” (Tohô, em Sanzôshi )   Fonte: trecho da Apresentação de Paulo Franchetti ao livro de haicais “O Mendigo Sonha”, de Edson Iura, Telucazu Edições, Jundiaí, 2022.  

DIÁRIO DE VIAGEM - verão de 2023

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(Imagem Ghinzo - Pixabay) Partimos de Belo Horizonte para Piedade de Caratinga na manhã de 18 de janeiro de 2023. A Kombi estava abarrotada de tralhas da mudança, o que a cada triênio nos faz desejar desfazer-se de mais e mais coisas supérfluas que tristemente acumulamos ao longo dos anos. [1] Felizmente pude trazer meus bonsais, muitos livros de que precisarei, e meus utensílios da Cerimônia do Chá. Deu pena ter de desmanchar a cabana do Ipê, elegante e aprazível, que tinha na cidade grande e onde fiz infinitas vezes treinos de Chadô. Bem diz-nos Santa Teresa: “tudo passa”. [2]   sonho d’uma noite curtíssima de verão — pé na estrada [3]   Quando nos afastamos da capital, deixando para trás a benfazeja lembrança da Serra do Curral, que embeleza e abençoa aquela cidade, tornou-se mais evidente a transformação da natureza. Bela de ponta a ponta, com traços singulares neste lado do Estado, parecia estarmos a ingressar em outro mundo. É notável a diversificação da Mata Atlântica....