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APONTAMENTOS

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    Matsuo Bashô por Katsushika Hokusai 「 瓶わるる夜の氷のねざめかな 」 kame waruru yoru no kôri no nezame kana   parte-se o vaso ah... súbito despertar do gelo da noite Bashô   Matsuo Bashô (1644-1694) é o mais venerado poeta de haicai do Japão. Uma vez, ensinando-me haicai, minha mestra citou este em japonês. Parece que alguém acorda, no meio da noite, por causa do barulho do jarro que se quebra devido ao gelo. Isso também sugere despertar em outro nível de consciência. Este poema me toca profundamente!   *   「岩鼻やこゝ に もひとり月の客」 iwahana ya koko ni mo hitori tsuki no kyaku   no cimo da rocha — um convidado da lua também solitário Kyorai   Kyorai (1651-1704) foi um dos mais notáveis discípulos de Bashô. Neste haiku, ele vislumbra alguém, tão sozinho quanto ele, a contemplar a lua em uma noite no rochedo. A lua é anfitriã... No livro de notas de Kyorai, que nunca foi publicado em português, há interessante co...

FLOR DE UMÊ

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  Imagem Pixabay * o som do silêncio  — última folha de inverno sobre o asfalto. desponta, perfumada, no canteiro malcuidado  — flor de umê a cor desta tarde  — um cacho de nêsperas sobre a mesa O haicai não deve nascer de modo artificial, mas puro e simples... prenhe de verdade. É assim que tenho considerado o exercício de compô-lo, no caminho. Como não posso, pela minha expectativa, fazer o sol nascer ou se pôr, devo apenas escrever. Escrever e  não querer tornar-me  haijin .  Estar no caminho é bom e é o que importa. N ão sei fazer melhor, mas ninguém deve deixar de seguir o impulso do coração por causa disso. C ada haiku é uma conquista que celebro como criança em noite de Natal.  Invejo os que escrevem diariamente, mas ainda não atingi nem sei se vou atingir semelhante estado de espírito e fluidez artística. Por serem poucos e represados até a hora do fluxo, em meu jeito de compô-los, acredito que os haicais vêm com força própria e talve...

HAICAI E CONCEITOS

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  (Imagem Larisa-K - Pixabay) HAICAI E CONCEITOS   Flores silvestres pequeninas e sem brilho à espera de abelhas... H. Masuda Goga   Um dia, na reunião do grêmio Ipê, discutíamos sobre yúgen – aquilo que de profundo e misterioso há em alguns textos, dando-nos clara noção de que o haicaísta alcançou, indizivelmente, a essência do assunto. Tal coisa, não parece acontecer pela mera virtuosidade. Embora seja uma qualidade artística, os fabricantes de bons tercetos jamais o alcançarão somente por isso! É algo que, se entendo bem, verifiquei apenas nos textos dos haijins mais aperfeiçoados, os menos pretensiosos, os destituídos de vaidade, e, surpreendentemente, em haicais de crianças. Nissim Cohen assim o apresenta: “qualidade ou virtude artística, yúgen – a representação do inefável ou do invisível, uma convocação do que está por baixo da superfície da natureza percebida”. [1] A yúgen , outros dois conceitos estéticos estiveram aliados: ushin e mushin . O ...