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O SOM DA CASCATA

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  Capa: Lilian Souza de Araújo O título deste livro foi extraído do verso secundário de um dos haicais de verão, aqui publicados. Em nota pessoal, para o referido haicai, escrevi naquela ocasião: “As folhas secas que vão se acumulando, ainda presas às bananeiras, têm o incrível som de água corrente, quando nelas sopra o vento do verão. Descobri isso hoje, 12 de janeiro de 2021, no nosso Eremitério de São José, em Piedade de Caratinga, Minas Gerais.” O vento de verão, no dicionário brasileiro de kigo “Natureza – Berço do Haicai”, de H. Masuda Goga e Teruko Oda, traduz-se nos verbetes “vento verde” (“vento não muito forte que sopra nos campos e regiões arborizadas, durante o verão; vento que parece brincar em meio à verde folhagem”) e “vento aromal” (“vento de verão que traz o cheiro da mata ou da terra; vento que cheira a capins, ervas ou gramíneas”). Quase todos os tercetos aqui enfeixados são inéditos, além de alguns já publicados na importante antologia “Lua de Outono” (Org....

FLORAL DE NEVE - Seishin

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  (Imagem Petra - Pixabay) floral de neve (INVERNO)   entre nevoeiro as velhas casas e a serra — a terra natal   fumaça de frio — a saudação matinal em poucas palavras   um mapa nas mãos — caminho em bifurcação desfeito na neve   a forte nevasca — no abrigo do vilarejo aula de aikidô   a neve nos Andes — fumaça de chaminé sobe sinuosa   imóvel o anzol — saltos de carpas ao longe neste lago frio     trens de Santiago — nos cimos da cordilheira só silêncio e neve   gravado na pedra um haiku à terra distante — dia do imigrante   fogueiras acesas — diversão de namorados ao som da sanfona   alta madrugada — no restinho da fogueira o velho se aquece   pio da coruja — no meio da madrugada a tosse do avô   um floral de neve — o caminho da montanha sob a luz da lua   noite de inverno — no relógio, indiferente o hototo...

VOO DA LIBÉLULA - Seishin

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  (Imagem Melanie - Pixabay) voo da libélula (OUTONO)   entre as hortaliças contas de um colar desfeito — gotas de rocio   jardim japonês — a dança do bambuzal na manhã de abril   festa de noivado — o caramanchão repleto de uvas maduras   um fado suave — nas ruelas de Coimbra a cor deste outono   placidez do lago — ah... o voo da libélula de asas translúcidas   quase uma carícia — no alvor do algodoal vento da tardinha   nuvens desta tarde — ao voo das maritacas certa nostalgia   quaresmeira em flor — austeridade e leveza da casa em ruínas   praça da estação — vão-se lentas uma a uma as folhas do plátano   no céu nublado da aldeia adormecida — lua desta noite   janelas de vidro — a prata do céu de outono na prata da casa   carrilhão silente — noite vazada de estrelas no pátio do claustro   um pedinte cego na es...

VENTO DE AROMAS - Seishin

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  (Imagem Joshua Woroniecki - Pixabay) vento de aromas (VERÃO)   golpe de katana — em duas partes a gota da chuva estival   após o aguaceiro ainda mais fulgurante — pássaro-de-fogo   silêncio abissal — no horizonte em chamas branca flor de cacto   um tanque de guerra avança em tempo de paz — o escaravelho   o vento de aromas — a terra natal distante e suas lembranças   velho igarapé — iaupê-jaçanã boia em mornas águas   no vasto horizonte um baile de água e de luz   — zarpar dos coiós   raio fulminante — kireji do meu haicai antes do trovão   rios flutuantes — a passagem do verão pela minha terra   anjo e trombeta em mármore esculpidos — os brancos jasmins   velha e estreita rua para a zona do prostíbulo — a dama-da-noite   a noite de festa — o voo da mariposa na rota da luz   o céu e a terra num intercâmbio de...

LUA NUBLADA - Seishin

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  (Imagem Carolina - Pixabay) lua nublada (PRIMAVERA)   nesta travessia quantas lembranças da infância — rio de primavera   estalido brusco — entre as folhas do jardim uma rã em fuga   tão leve... levíssima — a sementinha de ipê parece ter asa   marcha nupcial — o frescor da primavera no buquê da noiva   no arranjo floral o tremor das mãos da avó — broto de roseira   mar de primavera — a cidade litorânea parada no tempo   cantochão suave — na alameda do mosteiro os velhos salgueiros   casebre à venda — um lírio branco a pender no caos da cidade   dia ensolarado — no pomar das cerejeiras a folhagem tenra   feira popular — na flor e sobre os pães doces abelhas nativas      no salgueiro encurvado leveza quase palpável — chuva de primavera   chuva-de-caju — nas pontas do guarda-chuva biqueiras de luz   olhos no ...

[LEITURA CRÍTICA DE HAICAI]

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  Capa: Ulisses Góes - Ilustração da Capa: Rafael Pitta - Editora Mondrongo As descoloridas pinceladas dos haicais de Paulo Franchetti Paulo Franchetti é, sem dúvida, um dos melhores teóricos contemporâneos de haicai. Talvez por isso, e dada a grandeza de sua contribuição em língua portuguesa à teoria do haiku [n.1] , sua produção haicaístico-poética autoral é muitas vezes relegada a segundo plano. Embora tenha publicado haicais em algumas importantes antologias e em pelo menos três livros solos – dentre eles  Oeste  (Ateliê Editorial: Cotia, 2008), cujos poemas foram traduzidos para o japonês por ninguém menos que H. Masuda Goga –, tornar-se conhecido como poeta desse gênero literário nunca pareceu ser nem de longe sua ambição. Ao contrário disso, escreve e publica seus haicais como e quando quer, sem se importar em repetir alguns deles em mais de um livro; ignora conscientemente normas que, como exímio estudioso de haiku, conhece bem e aplica de modo eficiente na anális...