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NENPUKU SATO

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  kakinet.com ah trovão na densa floresta em todas as direções trovõezinhos Nenpuku Sato               Sobre a mesa, um livro de Nenpuku Sato. [1] Jamais saberei dizer quanto meu coração ama esse haijin... Um de seus poemas, aquele que talvez seja o mais conhecido, diz algo assim: “rasgo de trovão e seus rebentos a ecoar dos quatro cantos do mar de selva”. Ou: “ribombo do trovão – na densa floresta em todas as direções reverberam seus filhos”. Creio que esse haiku é a verdadeira captura de um instante em seu núcleo de eternidade, como ouço dizer dos haicais bons. Eu não entendo bem essa expressão, mas gosto muito dela. Em face do trovão, de todos os cantos retumbam ecos como filhos que acorrem ao chamado do pai. Segundo Edson Kenji Iura, aí se exprime “o assombro do imigrante ante a imensidão da natureza no novo país (...) algo que japonês nunca vira”. [2] Poucas vezes vi, com tanta precisão e força, a síntese de um mome...

FLOR DE UMÊ

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  Imagem Pixabay * o som do silêncio  — última folha de inverno sobre o asfalto. desponta, perfumada, no canteiro malcuidado  — flor de umê a cor desta tarde  — um cacho de nêsperas sobre a mesa O haicai não deve nascer de modo artificial, mas puro e simples... prenhe de verdade. É assim que tenho considerado o exercício de compô-lo, no caminho. Como não posso, pela minha expectativa, fazer o sol nascer ou se pôr, devo apenas escrever. Escrever e  não querer tornar-me  haijin .  Estar no caminho é bom e é o que importa. N ão sei fazer melhor, mas ninguém deve deixar de seguir o impulso do coração por causa disso. C ada haiku é uma conquista que celebro como criança em noite de Natal.  Invejo os que escrevem diariamente, mas ainda não atingi nem sei se vou atingir semelhante estado de espírito e fluidez artística. Por serem poucos e represados até a hora do fluxo, em meu jeito de compô-los, acredito que os haicais vêm com força própria e talve...

DIÁRIO (fragmento)

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DIÁRIO  (fragmento) O que faz um haicai ser haicai e não outra coisa?   Resposta possível, mas que apenas tangencia a questão: o sabor.   Há muita teoria sobre isso. Você mesmo escreveu linhas que não servem para nada. É como tentar exprimir os gostos de banana, manga, café, brócolis, uva, cachaça, água. Quem provou, sabe. Embora nem todos gostem de tudo ou precisem experimentar todas as coisas. As coisas, porém, são o que são.   Se a sua mente estiver vazia, talvez você encontre o haicai. Talvez nunca escreva um, mas saberá seu sabor quando o encontrar. Algo vai tocar seu coração.   Para quem faz disso um caminho de vida, o melhor se dá quando já não é importante escrever um bom haicai. Não queira escrever um bom haicai. Apenas escreva. E não tema o julgamento de ninguém. Faça tudo com humildade, sem pretensão.   Um haijin não pode ser orgulhoso. Se houver um fio de orgulho em seu coração, não conseguirá compor um haicai digno de consid...

VOO DE PASSARINHO

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  (Imagem Pixabay) – HAICAI – VOO DE PASSARINHO   A natureza e suas mudanças Sentir a natureza em suas mudanças não depende de estações bem definidas. Quando se pensa o contrário – se você está no Brasil, por exemplo, que é um país tropical – e não se liberta de uma vez por todas da fantasia de um haicai que precise de neve ou de flores de cerejeira para existir, fará cair em descrédito o que por convenção chamamos de haicai tradicional ou, como prefere Edson Iura, haicai sazonal brasileiro. [1] Aos próprios japoneses que aqui viviam, dizia o mestre Nenpuku: esqueçam a natureza do Japão. [2] É necessário aprender da natureza do Brasil, se você está no Brasil. Um dos momentos célebres da história do nosso haicai é aquele em que o mestre Goga explica “kigo” aos que não acreditavam ser possível poesia de estações em solo tupiniquim. [3] Sim, é possível. É possível aqui e em qualquer parte do mundo. Embora haja evidentes implicações nisso, o haicai não é aprisi...

À SOMBRA DOS IPÊS

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  (Imagem Musskoff - Pixabay) À SOMBRA DOS IPÊS       Chão pleno de flor Na sombra do ipê-roxo — Saudade do pai       Esse haicai foi escrito para o amigo W. O. K., por ocasião do falecimento de seu pai, P. K. Em seu tributo foram plantados quatro ipês: um ipê-amarelo, um ipê-branco, um ipê-roxo e um ipê-rosa.     IPÊ-ROXO, O KIGO   A estação do haicai acima é inverno, pois IPÊ-ROXO é kigo de inverno, período de sua floração. Dito de modo simples, kigo é aquela palavra de estação que dá ao haicai seu sentido de ser. Ipê-amarelo e ipê-branco resultam em kigos de primavera. Já um ipê-rosa, tal como o roxo, é de inverno. IPÊ sem qualquer outra referência será sempre entendido como de primavera. A flor do ipê é oficialmente a flor nacional e símbolo da primavera brasileira. É a flor suprema para muitos haijins do Brasil, algo talvez equivalente à cerejeira (sakura) no Japão. Haijins são poetas de haicai, iniciad...