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DEPOIS DO RAIO, ANTES DO TROVÃO...

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Pixabay Ao querido irmão Jishô Handa, monge budista zen do Templo Busshinji.     É inverno, as azaleias abriram-se em profusão aqui no claustro. Alguma borboletinha da estação pousou aí no grande sino do teu mosteiro? Lembrei-me da carta do ano passado. Dizer “lembrei-me” é retórica, pelo que peço desculpas. Eu não me esqueci nem um só dia da carta que agora respondo, sem pressa nem ênfase. Quando me mudei para o Sudeste do Brasil, não consegui assimilar imediatamente alguns aspectos de sua natureza. Sem dúvida, o maior desafio foi entender o inverno – muito diferente do inverno de minha terra – e o quanto eu sofria no frio daqui. Nenhuma vara foi mais severa que esta em minha vida de aprendiz de haijin! Quando confessei à mestra minha aversão a esse tempo do ano, recebi dela a mais severa reprimenda de que me recordo. Se eu não era capaz de aceitar o inverno e ser grato por ele, jamais saberia apreciar as outras estações. Era tão forte em mim a resolução de aprender hai...

O SOM DA CASCATA por Márcio Grings

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pixabay   noite de inverno o cavalo e a estrela igualmente sós   Finalizo mais um título do catálogo Telucazu Edições — O Som da Cascata , livro de haicais escrito pelo carmelita descalço Seishin (nome haicaístico, haigô, de Ant o nio Fabiano). Estudioso, o poeta/haijin se baseia na busca dos preceitos clássicos do terceto oriental. Kigo , kireji , concis ã o, a natureza como emblema tem á tico, a solid ã o como uma miss ã o de vida:   velho hotel — a barata e o haijin dividem o quarto   Dividido no modelo canônico de haicai, em capítulos ligados às estações, tendo sempre o haibun (texto introdutório em prosa) como uma abertura de cenário, o livro flui em sua leitura sem pesar ao leitor. No prefácio e posfácio, Seishin fala de referências, confessa frustrações e possíveis deficiências (segunda sua autocrítica rigorosa). Porém, o que acabo de ler, a partir da edição cuidadosa da Telucazu, passando pelo conteúdo lírico dos cerca de 100 haicais d...

RESENHA - O Som da Cascata

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pixabay O SOM DA CASCATA por Carlos Martins     Meu Deus do Céu, se este livro trouxesse apenas o seu prefácio, já seria uma das maiores contribuições que um haijin poderia ter, em seu palmilhar o Caminho do Haicai!   Não consigo parar de relê-lo, pois tem tudo que acredito e na voz, nas palavras, de um dos nossos maiores mestres de haicai: Seishin. Sua humildade, entretanto, fará com que ele torça o nariz em desaprovação a essas minhas palavras, mas, que posso fazer se acredito nelas, por vivenciar mediante seus escritos e – por grata felicidade – nossas conversas ocasionais?   “ O que faz um haicai ser haicai e não outra coisa? Resposta possível, mas que apenas tangencia a questão: o sabor. (...) Se a sua mente estiver vazia, talvez você encontre o haicai. Talvez nunca escreva um, mas saberá seu sabor quando o encontrar. Algo vai tocar seu coração. ”   Com essa pérola, ele inicia o prefácio, nos convidando a refletir sobre nosso próp...

INVERNO - Seishin

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  Imagem Pixabay muralhas de Ávila — sob o silêncio dos dias a neve... a neve...   gelado até os ossos — sereno e agradecido pulsa o coração   seu preço, antigo no bolso, esquecido — meu sobretudo      manhã opaca — o tracejo do voo da mosca de inverno   o roceiro segue após alegre bom-dia — caburé na porteira   dia de jejum — os brócolis sobre a mesa tão apetitosos   capital mineira — pra qualquer lado que se olhe ipês-roxos, rosas   hoje, cor-de-rosa a rua pobre em que moro — um, dois, três ipês   manhã de inverno — o voejar solitário da borboletinha   caminho do horto — apenas o ruído da queda da folha   solidão da ermida — pousado na velha cruz o pardal de inverno   painas ao vento — de repente me dou conta dos cabelos brancos   imóveis as sombras — ainda mais silenciosa a queda da paina   a tarde em d...

OUTONO - Seishin

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  Imagem Pixabay a velha montanha — silhueta luminosa sob o céu de outono   águas de outono — querubins e virgens choram nos vitrais do templo   explosão de riso — de repente o papagaio a dizer um nome   ao ouvir seu canto quero também ser passarinho — azulão-da-serra    imensa quietude — sobre o lago de águas turvas apenas neblina   no espelho do lago a fazer pequenas ondas — a libelulinha   voo solitário — perde-se na cor do céu a arara azul   sanhaço-da-serra — pontinho azul saltitante na beira da estrada   saudade do menino que te queria em gaiola — canário-do-mato   pio do inhambu — ainda mais melancólica a estrada da infância   vale dos tapuias — inclina-se ao vento o caniço-d’água   quase audível a queda do orvalho sobre a relva   certa nostalgia à desfolha do salgueiro — eis que envelheço   ave solitária — nuvem branca de outono ao cair da tarde   na beira da mata conversa com o pôr do sol — sanhaço-...