DEPOIS DO RAIO, ANTES DO TROVÃO...


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Ao querido irmão Jishô Handa,

monge budista zen do Templo Busshinji. 

 

É inverno, as azaleias abriram-se em profusão aqui no claustro. Alguma borboletinha da estação pousou aí no grande sino do teu mosteiro? Lembrei-me da carta do ano passado. Dizer “lembrei-me” é retórica, pelo que peço desculpas. Eu não me esqueci nem um só dia da carta que agora respondo, sem pressa nem ênfase. Quando me mudei para o Sudeste do Brasil, não consegui assimilar imediatamente alguns aspectos de sua natureza. Sem dúvida, o maior desafio foi entender o inverno – muito diferente do inverno de minha terra – e o quanto eu sofria no frio daqui. Nenhuma vara foi mais severa que esta em minha vida de aprendiz de haijin! Quando confessei à mestra minha aversão a esse tempo do ano, recebi dela a mais severa reprimenda de que me recordo. Se eu não era capaz de aceitar o inverno e ser grato por ele, jamais saberia apreciar as outras estações. Era tão forte em mim a resolução de aprender haicai, que algo em meu coração mudou e eu verdadeiramente alcancei: no inverno, o inverno. Agora, com as mãos geladas, escrevo premido de gratidão! Eu tenho meditado muito sobre haicai. Há mais de duas décadas tenho pensado em haicai todos os dias de minha vida. Sempre houve em mim a disciplina de ficar horas, todas as manhãs e às vezes à noite ou pela madrugada, estudando textos de haicai, lendo os poetas clássicos do Japão e de todo o mundo, memorizando ensinamentos dos mestres, indo aos próprios bichos e plantas. Não que agora eu tenha menos disciplina, quando mais que nunca um rio caudaloso de livros e ensaios passam pelas minhas mãos e leio tudo de pessoas que sabem tudo; o que sinto é que talvez eu tenha perdido a inocência, e quando perdemos a inocência, quando deixamos de ser puros, como a água entre os dedos nos foge o haicai! Isso que digo, lido por outros, parecerá exagero. Mas não é. Há sinceridade em cada palavra desta missiva! É assim que de uns tempos para cá eu tenho me sentido: em total ignorância e vazio de haicai. Um não saber escrever, apesar de sentir, um rabiscar qualquer coisa que não me satisfaz! Eu nunca pensei que sabia, mas eu não sabia que era possível dar-se conta, de modo assim tão cabal, deste não saber. Agora que sei que não sei, sinto-me bruto como as pedras, porque dizer que me sinto também delicado como as flores resvala poesia. Eu não duvido que estou no caminho, apenas penso que perdi o diapasão. O meu último livro, eu não o queimei porque seria vaidade fazê-lo. Mas desejo, doravante, qualquer coisa nova, qualquer coisa que, sendo ela mesma, seja nova. Que eu envelheça! Amém. É verdade que alguns gostam de meu haicai. Peço a Deus que também haja quem lhe torça a cara e despreze com altivez. Neste momento, encontro-me indiferente a qualquer coisa que pensem de mim. Digo “de mim”, porque o mais miserável de meus haicais é o que sou intimamente. Porque nunca menti em nenhum de meus haicais. Porque o belo ou o medíocre que ali vislumbrarem é apenas o que foi minha vida em algum instante. Por isso intuo que não faço literatura em haicai, mas qualquer coisa diferente de minha outra poesia. O haicai que fazemos é foro íntimo, essa intimidade é sagrada. Entendo, irmão, teus olhos de neblina! Sinto que uma linha invisível me liga aos mestres do passado, como herdeiro de uma tradição que não inventei e que me foi transmitida e à qual sou fiel. Sinto agora na alma um sabor nauseabundo – esta palavra ao mesmo tempo engraçada e horrível da língua portuguesa. Almejo um haicai totalmente novo, ainda que seja novo só para mim, ainda que comece e termine em mim, como todas as coisas que começam e terminam naqueles que são dignos delas. É por isso que digo como me sinto, como quem cavalga no escuro em desembestada carreira sobre um cavalo que sequer existe. Sou, dileto irmão, um peregrino errante, não tenho nada no bornal nem levo nada nas mãos pelo caminho, além de um cajado, que também não é nada. Meus pés, descalços, estão em carne viva. Mas doem mais os calos, quando nos calçamos ou pomos sandálias alheias. Quanto mais vivo, mais nu me torno! Como contemplativo, meus versos não passam de versos de um reles monge. Se eu fosse empresário, escreveria como empresário. Se eu fosse princesa da corte imperial, escreveria como princesa da corte imperial. Se eu fosse feirante, escreveria um pregão e meus versos seriam belos como os de um feirante. Eu quero o que todos eles fariam, na mais radical fidelidade ao que são, mas quero algo mais! Sinto-me suspenso entre o que há e o que agora intuo, medíocre, aturdido como quando cai sobre nossas cabeças um raio e não sabemos se fomos fulminados ou redimidos, e prendemos a respiração, inconscientemente sobrepujados pela finitude e insignificância ou magnificência de tudo, como uma criança tola, extática em face do relâmpago, a ignorar o poder letal da descarga elétrica das nuvens e a temer antes o trovão que grita seu grito de luz e faz tremer as janelas, e nada mais faz que isso! Sinto que estou entre o que há depois do raio e antes do trovão. Aqui em Minas Gerais continuo praticando Chadô. Como não há escola, treino sozinho. Quando me mudei planejava ir mensalmente a São Paulo, para ter aulas na Hakuei-an. Isso não foi possível até agora! Estou sempre em contato com os mestres da Cerimônia do Chá, mas a pandemia impediu-nos de qualquer encontro. Nossas escolas em todo o mundo foram fechadas e, só agora, têm sido aos poucos reabertas. Eu fiz uma cabana improvisada, onde treino todos os dias. Fica debaixo de um singelo ipê e perto de outros ipês, por isso dei-lhe o nome de Ipê-an. Ali, como homem do chá e poeta de haiku, passo momentos de solidão. São João da Cruz fala de “música calada” e “solidão sonora”. Eu não sei bem o que é isso... Mas sinto tão grande silêncio que até posso ouvir as formigas quando atravessam a sala, além do canto dos pássaros lá fora e o chiado da água fervendo na caldeira. Vi partir muitas pessoas conhecidas, nesta pandemia, tantas que a conta já não cabe nos dedos. Aqui, tal como aí, as atividades religiosas de nossas igrejas e conventos foram terrivelmente afetadas. Mas nós, os que fomos poupados até este instante, não temos outra coisa a fazer senão estar gratos! Que a paz habite os corações! Que meu amigo esteja bem!      

 

Seishin 清心

Belo Horizonte,

inverno de 2021.

 


[Seishin, “O Som da Cascata”. Jundiaí, SP: Telucazu Edições, 2023.]

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