HAICAI E CONCEITOS

 

(Imagem Larisa-K - Pixabay)

HAICAI E CONCEITOS

 

Flores silvestres

pequeninas e sem brilho

à espera de abelhas...

H. Masuda Goga

 

Um dia, na reunião do grêmio Ipê, discutíamos sobre yúgen – aquilo que de profundo e misterioso há em alguns textos, dando-nos clara noção de que o haicaísta alcançou, indizivelmente, a essência do assunto. Tal coisa, não parece acontecer pela mera virtuosidade. Embora seja uma qualidade artística, os fabricantes de bons tercetos jamais o alcançarão somente por isso! É algo que, se entendo bem, verifiquei apenas nos textos dos haijins mais aperfeiçoados, os menos pretensiosos, os destituídos de vaidade, e, surpreendentemente, em haicais de crianças. Nissim Cohen assim o apresenta: “qualidade ou virtude artística, yúgen – a representação do inefável ou do invisível, uma convocação do que está por baixo da superfície da natureza percebida”.[1]

A yúgen, outros dois conceitos estéticos estiveram aliados: ushin e mushin. O primeiro – “ter coração” – designa o texto “repleto de emoção poética profundamente sentida”; ao passo que mushin – “sem coração” – significou, de início, o texto marcado pela ausência daquele sentimento, passando a indicar, posteriormente, “a ´beleza transcendente e intuitiva´, não redutível a explicação ou análise”.[2] É preciso dizer que ambos foram assimilados pelo conceito central de yúgen.    

Na esteira desses conceitos, três outros se destacam como sumamente importantes para a escola de Bashô: sabi, wabi e karumi. 1) Sabi: “se aplica a poemas caracterizados pelo clima de solidão e de tranquilidade”, isto é, “a calma, a resignada solidão do homem no meio da beleza brilhante, da grandeza do universo”. 2) Wabi: “também conota solidão, mas dessa vez com referência ao estado emocional da vida do eremita, do asceta”, “um calmo saboreio dos aspectos agradáveis da pobreza, do despojamento que liberta o espírito dos desejos que o prendem ao mundo”, “a arte que, com o mínimo de elementos, significa apenas o suficiente para que se realize o momento de integração entre o homem e o que o rodeia”. 3) Karumi: “combinação de simplicidade superficial com conteúdo sutil” (ideal estético oposto ao haicai afetado, “ostensivamente trabalhado e aparentemente carregado de sentido”).[3]

O que até agora foi dito, não é passível de reprodução em um terceto qualquer, em um haicai apenas imaginado ou pretendido a partir da perícia de seu autor. Quando há tentativa de manipular esses conceitos, sem qualquer moção de experiência, o que nasce da empreitada não merece ser chamado de haicai.[4]

Essa enxurrada de conceitos trouxe à baila outro ainda mais antigo e de fundamental importância para a compreensão do haicai da escola de Bashô. Refiro-me a makoto, que se traduz muitas vezes por sinceridade, verdade, a verdade do coração. Creio ser esta uma palavra iluminadora para o caminho do haicai. Ela sugere uma coerência profunda entre sentimento, palavra, vida e ações. Um haijin que se atém a esse princípio, tem o haicai como arte que se vincula ao próprio ser. O caminho do haicai é um modo de vida.    

Makoto exprimiu-se em três conceitos estéticos sumamente valorizados em textos literários, a saber: sei (pureza), mei (brilho) e choku (elevação de caráter, correção espiritual e, também, franqueza).[5] 

Alberto Marsicano, referindo-se a Bashô, escreveu: “Costumava dizer: ‘Não busco o que os antigos criaram, mas sim o que almejaram’. Segundo suas palavras, o que os sábios da antiguidade mais buscaram teria sido o ‘Makoto’. (...) Como salientou o seu discípulo Toho, teria sido Bashô quem introduzira este princípio no haikai.” E cita alguns pensamentos de Bashô sobre o ‘Makoto’ da poesia: “Deve ser fixado antes que a luz se apague”... “A boca prestes a comer a pera”... “Deixe que um menino o faça”... “Aprende do pinheiro diretamente do pinheiro; do bambu diretamente do bambu”...[6]

“Não seria essa verdade ou sinceridade (makoto) o que faz um bom haicai? Aquela sinceridade que toca o coração de quem lê, a partir do espírito das palavras de quem escreve?”[7]

“Sim, penso que makoto é, também, isso que você afirma. Assisti, há muito tempo, num programa da NHK (TV estatal japonesa), a entrevista de um poeta japonês, professor de uma universidade do Japão (já não lembro qual...), e ele discorria sobre o ser ou não ser do haiku/haicai. Uma das afirmações que me marcou diz o seguinte: "um bom haiku/haicai imbuído de makoto/verdade nos mostra o que sabemos mas não sabemos que o sabemos". Fiquei muito tempo refletindo sobre essa afirmação. E sempre que podia, ligava a TV na NHK para ver se conseguia uma luz, um entendimento, sobre o significado dessa afirmação. Mas, lamentavelmente, nenhum convidado voltou a tocar nesse assunto, pelo menos nos dias em que eu estava lá, antenada, ligada... Hoje, acredito que a interpretação mais próxima seria esta: "captura a luz que emana das coisas antes que ela se apague", palavras de Bashô. Traduzindo para o nosso bom português, makoto é o fragor d'água que a rã de Bashô produz no velho tanque. Ou a súbita descoberta de Issa, de que o tempo passa, inexorável, para todos: "Cerejeiras do anoitecer – / Hoje também / Já é outrora." Menina, pode haver sinceridade/verdade maior do que esta constatação? O micro, o macro, nós mesmos, eternos e transitórios...”[8]

Aí estão alguns termos que com frequência aparecem nas discussões. Não tem tanta importância saber esses nomes, mas assimilar o que eles significam para o caminho que trilhamos.

 Seishin 清心

seridoano@gmail.com

(Apontamento do início de 2017)



[1] No texto introdutório de SAIGYO – Poemas da Cabana Montanhesa. Organização e tradução de Nissim Cohen. São Paulo: Aliança Cultural Brasil-Japão/Massao Ono, 1994 ou Editora Hedra, 2010.  

[2] Paulo Franchetti, Haikai – antologia e história. 4ª ed. rev. – Campinas, SP: Editora da Unicamp, 2012, pp. 22-23.

[3] Paulo Franchetti, Haikai – antologia e história. 4ª ed. rev. – Campinas, SP: Editora da Unicamp, 2012, pp. 23-24.

[4] Essa afirmação restringe-se ao haicai que praticamos. Não me refiro a outras formas de haicai que a meu ver também são legítimas, mas não se regem pelos princípios que norteiam o que chamamos de haicai tradicional ou “escola de Bashô”.

[5] Essas definições de sei, mei e choku em: Paulo Franchetti, Haikai – antologia e história. 4ª ed. rev. – Campinas, SP: Editora da Unicamp, 2012, p. 21.

[6] Alberto Marsicano em texto intitulado “A trilha errante de Basho”. Matsuo Basho – Trilha estreita ao confim. São Paulo: Editora Iluminuras, 1997, pp. 9-10.

[7] Pergunta de Débora Fernandes Tavares a Teruko Oda, em correio eletrônico de 21 de fevereiro de 2017.

[8] Resposta de Teruko Oda em correio eletrônico de 21 de fevereiro de 2017. O diálogo havia sido encaminhado a mim, pois era continuação de um assunto surgido na aula de haicai, e eu havia redigido o texto que suscitara a pergunta.

Postagens mais visitadas deste blog

MANHÃ DE DOMINGO

ÁRVORE ESPLÊNDIDA...

APONTAMENTOS