HAICAI E CONCEITOS
HAICAI E CONCEITOS
Flores
silvestres
pequeninas
e sem brilho
à espera
de abelhas...
H. Masuda Goga
Um dia, na reunião do grêmio Ipê, discutíamos sobre yúgen – aquilo que de profundo e misterioso
há em alguns textos, dando-nos clara noção de que o haicaísta alcançou, indizivelmente,
a essência do assunto. Tal coisa, não parece acontecer pela mera virtuosidade.
Embora seja uma qualidade artística, os fabricantes de bons tercetos jamais o
alcançarão somente por isso! É algo que, se entendo bem, verifiquei apenas nos
textos dos haijins mais aperfeiçoados, os menos pretensiosos, os destituídos de
vaidade, e, surpreendentemente, em haicais de crianças. Nissim Cohen assim o apresenta:
“qualidade ou virtude artística, yúgen
– a representação do inefável ou do invisível, uma convocação do que está por
baixo da superfície da natureza percebida”.[1]
A yúgen, outros
dois conceitos estéticos estiveram aliados: ushin
e mushin. O primeiro – “ter coração” – designa o texto
“repleto de emoção poética profundamente sentida”; ao passo que mushin – “sem coração” – significou, de
início, o texto marcado pela ausência daquele sentimento, passando a indicar,
posteriormente, “a ´beleza transcendente e intuitiva´, não redutível a
explicação ou análise”.[2]
É preciso dizer que ambos foram assimilados pelo conceito central de yúgen.
Na esteira desses conceitos, três outros se destacam como
sumamente importantes para a escola de Bashô: sabi, wabi e karumi. 1) Sabi: “se aplica a poemas caracterizados pelo clima de solidão e de
tranquilidade”, isto é, “a calma, a resignada solidão do homem no meio da
beleza brilhante, da grandeza do universo”. 2) Wabi: “também conota solidão, mas dessa vez com referência ao
estado emocional da vida do eremita, do asceta”, “um calmo saboreio dos
aspectos agradáveis da pobreza, do despojamento que liberta o espírito dos
desejos que o prendem ao mundo”, “a arte que, com o mínimo de elementos,
significa apenas o suficiente para que se realize o momento de integração entre
o homem e o que o rodeia”. 3) Karumi:
“combinação de simplicidade superficial com conteúdo sutil” (ideal estético oposto
ao haicai afetado, “ostensivamente trabalhado e aparentemente carregado de
sentido”).[3]
O que até agora foi dito, não é passível de reprodução em um
terceto qualquer, em um haicai apenas imaginado ou pretendido a partir da
perícia de seu autor. Quando há tentativa de manipular esses conceitos, sem qualquer
moção de experiência, o que nasce da empreitada não merece ser chamado de
haicai.[4]
Essa enxurrada de conceitos trouxe à baila outro ainda mais
antigo e de fundamental importância para a compreensão do haicai da escola de
Bashô. Refiro-me a makoto, que se
traduz muitas vezes por sinceridade, verdade, a verdade do coração. Creio ser esta
uma palavra iluminadora para o caminho do haicai. Ela sugere uma coerência
profunda entre sentimento, palavra, vida e ações. Um haijin que se atém a esse
princípio, tem o haicai como arte que se vincula ao próprio ser. O caminho do
haicai é um modo de vida.
Makoto exprimiu-se em três conceitos
estéticos sumamente valorizados em textos literários, a saber: sei (pureza), mei (brilho) e choku (elevação
de caráter, correção espiritual e, também, franqueza).[5]
Alberto Marsicano, referindo-se a Bashô, escreveu: “Costumava
dizer: ‘Não busco o que os antigos criaram, mas sim o que almejaram’. Segundo
suas palavras, o que os sábios da antiguidade mais buscaram teria sido o
‘Makoto’. (...) Como salientou o seu discípulo Toho, teria sido Bashô quem
introduzira este princípio no haikai.” E cita alguns pensamentos de Bashô sobre
o ‘Makoto’ da poesia: “Deve ser fixado antes que a luz se apague”... “A boca
prestes a comer a pera”... “Deixe que um menino o faça”... “Aprende do pinheiro
diretamente do pinheiro; do bambu diretamente do bambu”...[6]
“Não seria essa verdade ou sinceridade (makoto) o que faz um bom haicai? Aquela sinceridade que toca o
coração de quem lê, a partir do espírito das palavras de quem escreve?”[7]
“Sim, penso que makoto é, também, isso que você afirma.
Assisti, há muito tempo, num programa da NHK (TV estatal japonesa), a
entrevista de um poeta japonês, professor de uma universidade do Japão (já não
lembro qual...), e ele discorria sobre o ser ou não ser do haiku/haicai. Uma
das afirmações que me marcou diz o seguinte: "um bom haiku/haicai imbuído
de makoto/verdade nos mostra o que sabemos mas não sabemos que o sabemos".
Fiquei muito tempo refletindo sobre essa afirmação. E sempre que podia, ligava
a TV na NHK para ver se conseguia uma luz, um entendimento, sobre o significado
dessa afirmação. Mas, lamentavelmente, nenhum convidado voltou a tocar nesse
assunto, pelo menos nos dias em que eu estava lá, antenada, ligada... Hoje,
acredito que a interpretação mais próxima seria esta: "captura a luz que
emana das coisas antes que ela se apague", palavras de Bashô. Traduzindo
para o nosso bom português, makoto é o fragor d'água que a rã de Bashô produz
no velho tanque. Ou a súbita descoberta de Issa, de que o tempo passa,
inexorável, para todos: "Cerejeiras do anoitecer – / Hoje também / Já é
outrora." Menina, pode haver sinceridade/verdade maior do que esta
constatação? O micro, o macro, nós mesmos, eternos e transitórios...”[8]
Aí estão alguns termos que com frequência aparecem nas
discussões. Não tem tanta importância saber esses nomes, mas assimilar o que
eles significam para o caminho que trilhamos.
Seishin 清心
(Apontamento do início de 2017)
[1]
No texto introdutório de SAIGYO – Poemas
da Cabana Montanhesa. Organização e tradução de Nissim Cohen. São Paulo:
Aliança Cultural Brasil-Japão/Massao Ono, 1994 ou Editora Hedra, 2010.
[2]
Paulo Franchetti, Haikai – antologia e
história. 4ª ed. rev. – Campinas, SP: Editora da Unicamp, 2012, pp. 22-23.
[3]
Paulo Franchetti, Haikai – antologia e
história. 4ª ed. rev. – Campinas, SP: Editora da Unicamp, 2012, pp. 23-24.
[4]
Essa afirmação restringe-se ao haicai que praticamos. Não me refiro a outras
formas de haicai que a meu ver também são legítimas, mas não se regem pelos princípios que norteiam o que chamamos de haicai tradicional ou “escola
de Bashô”.
[5]
Essas definições de sei, mei e choku em: Paulo Franchetti, Haikai
– antologia e história. 4ª ed. rev. – Campinas, SP: Editora da Unicamp,
2012, p. 21.
[6]
Alberto Marsicano em texto intitulado “A trilha errante de Basho”. Matsuo Basho – Trilha estreita ao confim.
São Paulo: Editora Iluminuras, 1997, pp. 9-10.
[7]
Pergunta de Débora Fernandes Tavares a Teruko Oda, em correio eletrônico de 21
de fevereiro de 2017.
[8]
Resposta de Teruko Oda em correio eletrônico de 21 de fevereiro de 2017. O
diálogo havia sido encaminhado a mim, pois era continuação de um assunto
surgido na aula de haicai, e eu havia redigido o texto que suscitara a pergunta.