HAICAI E MEMÓRIA
HAICAI E MEMÓRIA
PONTO DE VISTA E A VISTA DE OUTRO PONTO
Francisco Handa
discorreu, na sétima colação de “Técnica e disciplina” (Jornal Nippak, Haicai
Brasileiro, 24 de novembro de 2016)[1], sobre o “presente vivido”
na composição de um autêntico haicai. Refere-se ao “diálogo de sensações” que
se estabelece – ou deveria, necessariamente, estabelecer-se – com o “presente”,
na feitura do haicai.[2] Em seguida afirma: “Não se
compõe um haicai numa época com o kigô de outra. (...) Se isso ocorrer, o
haicaísta está ludibriando a si mesmo e aos outros. (...) Por isso, a
composição do haicai pressupõe que o haicaísta viva no ato da composição com os
elementos fenomênicos e físicos do instante. Fazer o inverso é possível, quando
o haicaísta revira o seu baú de memórias, de uma época diferente, de sua
sensação diferente para compor. No caso, faltará com a honestidade da
composição, construindo um haicai artificial. Não se trata de haicai mas de
alguma outra coisa.”
É aqui, neste ponto, da
extensão ou alcance do presente vivido e da atuação da memória, que a minha
percepção discorda, em parte, de Handa, por quem tenho grandíssimo respeito.
Leio todos os trabalhos deste monge budista, seus livros e artigos, os quais
são inspiração e luz. Prezo-o, ainda mais, por ser ele
um haijin veterano, experimentado, do grupo de Goga sensei, e alguém que dá ao
Brasil algumas das mais valiosas contribuições para o caminho do haicai. Assim,
não escrevo para contestar sua opinião, mas para expor diferente ponto de vista
que, como dizem, é tão somente a vista de um ponto.
O TEMPO DO HAICAI
O tempo do haicai é o
presente, ou seja, o que está acontecendo aqui e agora. É nesse átimo que se
compõe o haicai imbuído de verdade[3], a partir do kigo. Um
haicai composto a partir de cenas ou fatos inventados, não seria digno desse
nome. Mas estou convencido de que este presente
ou o aqui e agora, a que nos
referimos acima, não subsiste exclusivamente nos “elementos fenomênicos e
físicos do instante” em que se dá a experiência motora do haicai, isto é, a
descoberta do evento poético; mas também e majoritariamente na fração de
eternidade que se capta desse instante vivido, brevíssimo, porém denso e
profundo o bastante para ativar a sensibilidade toda vez que nossa memória, por
alguma moção, torna isso possível. Haicai é um pequeno milagre que acontece
dentro e fora de nós. Dito de modo mais adequado, uma súbita iluminação ou
despertar, sem querer dar a esses termos, necessariamente, a conotação que têm
no âmbito religioso.
Muitas vezes, para as
pessoas de nosso tempo, ele foi comparado a uma fotografia. O que é fotografia,
senão a captura de um instante? Isto é, um recorte da realidade, presente eternizado,
na memória da câmera ou em filme, na revelação e impressão, em toda e qualquer
projeção, inclusive cinematográfica. A não incorrer em adulteração, parece ser
legítima a ocasional evocação desta memória em nossa arte, sem ferir qualquer princípio
ou ortodoxia. Menosprezar a força da intuição e da criatividade, na composição de
um haicai, quando estas favorecem o reacontecer fiel da realidade transitória experimentada,
seria reduzir o haicai a algo menor.
QUANDO É, É. QUANDO NÃO É, NÃO É.
É no decorrer das
estações e sustentado por seus kigos, sim, que o haicai se dá a conhecer. Mas o
poema se realiza no exato agora, independentemente do momento em que foi composto,
inscrito, transcrito, traduzido ou lido. Sem dúvida, escrevê-lo longe dos fatos
ou expatriado da experiência pode comprometer sua autenticidade e até
destruí-lo. Isso ocorre quando há interferência da fantasia, em relação ao fato
vivenciado, quando se compõe um terceto à moda ocidental, sustentado apenas
pela imaginação, quando o ego interfere e o projetamos na obra, com sobejo de
virtuosismo etc. Falta, portanto, o ingrediente principal: sabor de haicai. E
haicai é ou não é. Mas não é onde ou quando escrevo o haicai, que dirá se ele é
autêntico ou não. É sempre a força da experiência, o sabor inconfundível da
verdade, os elementos que se impõem ao autor e eventual leitor, o que conta
neste assunto. Como a luz da manhã na luz da manhã, ou como a água da fonte
nela mesma. Por isso há de ser indizível a gratidão do haijin, em face de todos
os acontecimentos naturais, com efusão de alegria e humildade.
NÚCLEO
Sem dúvida, o exercício
desta arte, que tem por princípio a simplicidade, reside,
primariamente, na via ordinária de compor no aqui e agora do “diálogo de
sensações” com o “presente vivido”, a saber: a atual estação e seus kigos. É
esta a via régia do espírito atento, que dá à luz obras de inquestionável
autenticidade, como exercício de disciplina, experiência de vida, muito além de
qualquer técnica. Mas é possível, a meu ver, sem incorrer em ludíbrio ou
desonestidade de composição, externar o haicai nascido da experiência pura,
verdadeira, ainda que esta experiência – atualizada ou escrita agora – situe-se
no que chamamos de passado. Sua eclosão é presente, jamais passado, porque
haicai desconhece esse tempo, tanto quanto o futuro. Refiro-me, então, àquele
“núcleo” ou “momento de eternidade do transitório”, já vislumbrado aqui e
tantas vezes aludido pelos mestres. Ouvi-o de minha mestra, reiteradas vezes.
Vejamos um exemplo dado
pelo próprio mestre Bashô, naquele episódio que nos é contado através das
gerações. Um de seus discípulos apresenta-lhe o seguinte haicai: “libélula – tirando-lhe
as asas, uma pimenta”. Intolerável ao coração e à piedade do velho mestre, tal
violência. Ora, esta visão não é compatível com o espírito do haicai por ele
preconizado. Está claro que o discípulo, mesmo sem querer, subverteu a
experiência, corrompeu o kigo, não obstante a materialidade do fato de ele ter
visto uma libélula. O mestre, como é comum na tradição de nossa escola, pode e deve,
se necessário, corrigir o haicai do discípulo. Rebate Bashô: “pimenta – pondo-lhe
asas, uma libélula”. Qual dos dois textos está imbuído de real experiência?
Qual deles contém a verdade, o espírito do haicai?
ATITUDE
Haicai é tudo e está em
tudo, tendo-se em conta a disposição do espírito. Parece-me que é a isso que os
mestres dão o nome de atitude, algo
imprescindível ao haijin, poeta haicaísta, aquele que segue o ‘haicai-dô’. Quando
se compõe um haicai (refiro-me, claro, a um haicai plenamente realizado), ainda
que a leitura do kigo e do momento poético tenha sido resgatada da memória, não
é o tempo passado o seu assunto principal, porque não há espaço para isso neste
tipo especial de texto.
Teruko Oda ensina que
estamos diante de um haicai plenamente realizado quando, pela habilidade do autor
em proporcionar ao leitor a vivência de uma experiência real, esse texto
suscita emoções, sensações, sabores, sentimentos que viabilizam um despertar ou
reacontecer do momento transitório.[4] E o mestre Bashô nos
recorda: “as obras produzidas pelo espírito são boas, mas as produzidas apenas
com artifício de palavras não são dignas de respeito”.
O haicai não só ocorre no
presente, como ele próprio é o presente, aquilo de eterno que brilha em meio à
fugacidade e nos enleva. Uma fagulha ou chispa e nada mais. Efêmero, fugidio
como uma gota de orvalho, como a bela florada dos ipês.
OBJETIVIDADE E SUBJETIVIDADE
“Haikai é simplesmente o que está acontecendo
aqui, agora”, segundo Bashô.[5] Handa tem razão. Mas negar
a possibilidade de contribuição da faculdade da memória, em favor do presente na
composição de um haicai, é negar que ele possa ser experimentado por outrem, ou
por quem quer que seja, inclusive seu autor, em momento diverso, em outra
estação que não a dos “elementos fenomênicos e físicos do instante” em que o espírito
do haicai se manifesta. É, inclusive, colocar em cheque a autenticidade do ato
criador de haicais nos círculos de tradição, presentes ao longo de toda a
história, desde o Japão, onde se pratica esta arte em lúdicos desafios ou
proposição de temas, sob a tutela de um mestre ou par da confraria.
Desautorizaria, igualmente, qualquer interferência dos mestres nas obras dos
discípulos, se aqueles não estivessem ao lado destes no “ato da composição com
os elementos fenomênicos e físicos do instante”, e dentro da mesmíssima
experiência, pessoal, complexa, não apenas objetiva, mas com sua inerente carga
de subjetividade.
Por que um haicai de Issa
toca, emociona e gela a alma de um menino nascido em um país tropical, quando,
por exemplo, fala de neve? Por que a língua, os séculos e a própria geografia
não são embargos para isso? A resposta é simples: porque este haicai é autêntico
e, como todo haicai plenamente realizado, o espaço e o tempo dele são o agora, a
eternidade, em Issa, em mim e em toda pessoa que o leia com a mente e o coração
abertos, em qualquer época. E o kigo que é a neve, não é a neve, como palavra
mágica inserida no poema, mas aquilo que em face dela se manifesta como
experiência radical, atitude, disposição de alma, não interferência, comunhão; lá,
no momento em que ele compôs seu poema, e aqui, no momento em que o menino
tropical o leu e, mais que isso, experimentou-o. “Apenas estando aqui / estou
aqui. E a neve cai.” (Issa)
Um dos mais respeitados
estudiosos de haicai do nosso país, Paulo Franchetti, assim o define em uma
entrevista: “Penso que um bom haicai é aquele que tem a modéstia e o
despojamento da linguagem como valores centrais, aquele que não se satisfaz na
banal exibição de virtuosidade técnica ou capacidade de associação brilhante.
Ou seja, penso que um bom haicai é um texto que se limita voluntariamente a
apenas situar uma dada percepção sensória, objetiva, num campo maior de
referências (objetivas ou subjetivas) onde ela ganhe sentido e componha um
quadro único; um texto que traz para o leitor a presentificação de um instante
como algo inacabado, aberto, um esboço ou um diagrama do choque entre a
sensação fugaz e irrepetível e seu longo ou profundo ecoar nas diversas cordas
da sensibilidade e da memória.”[6]
EXPERIÊNCIA
O ludíbrio, autoengano e
desonestidade de composição podem, de fato, ocorrer na obra de qualquer haijin,
principiante ou veterano, inclusive quando ele está na exata estação e a
escrever sobre elementos atuais, isto é, os kigos próprios daquela estação. As
razões são outras, para tal erro. Um iniciado, dotado de acuidade, percebe à
primeira leitura o abismo de diferença que há entre um haicai verdadeiramente
nascido e um terceto artificial. Há magníficas construções, com aplicação de
métrica perfeita e kigo, mas que não são haicais e mais nos envergonham
enquanto peregrinos do haikai-do. Por
outro lado há textos demasiado simples, que nem sequer parecem poesia ou
criação artística, mas que são haicais. A esse propósito ensinava o grande mestre
Nenpuku Sato: “Faça o haikai mais simples, sem pretensão de ser brilhante
porque o haikai perfeito fica, na maioria das vezes, afetado. Deixe seu lado
simples, comum, aparecer. Na verdade é preciso escrever o que você viu e
sentiu, mesmo que lhe pareça tolo, pois, é este, muitas vezes, o verdadeiro
haikai: ele é capaz de tocar o coração das pessoas.”[7]
O haicai não acontece
apenas no momento de sua inscrição, mas na experiência, transcrita ou não. Sua
inscrição não é o haicai. A caneta e o bloquinho de papel não são o haicai. Nem
a tinta. Nem a composição frasal. Nem as sílabas contadas certinhas. Nem o kigo
consultado no dicionário de kigos. O espírito do haicai não cabe em nenhuma
dessas coisas, ultrapassa-as. O haicai não está mais na montanha do que em
nossa selva de pedras, saltando do meio dos paralelepípedos. Ele está em tudo e
é tudo. Haverá algo não tocado pela natureza?
NATURAL, SIM. VULGAR, NÃO.
O próprio Handa não é
radical ao apresentar seu ponto de vista. Sabiamente sinaliza, ao final da
exposição, com a clareza e objetividade que lhe são peculiares: “Isso que está
sendo colocado deve ser visto mais como uma maneira de atuar do que
propriamente uma regra. Somente a experiência nesta composição dará ao
haicaísta condições para valorizar o kigô como um símbolo que diz respeito à
transitoriedade da Natureza. O próprio produtor como parte dela.” Assim, sua
colação cumpre o importante papel de chamar a nossa atenção para o fato de que
haicai, para aqueles que o têm como caminho, não deve ser banalizado, nem praticado
com irresponsabilidade ou espírito raso. A artificialidade empobrece ou torna impossível
a realização completa do haicai, aquele
que almejamos. Nele, o natural não deve se confundir com vulgaridade. Com a
seriedade e leveza de um verdadeiro haijin, esta parece ser a principal
mensagem de meu irmão Jishô Handa. Nisto estamos em absoluto acordo.
“Não busco o que os
antigos criaram, mas sim o que eles almejaram” (Bashô).
Seishin 清心
Revista Brasil Nikkei Bungaku nº 56 – Julho/2017 pp. 18-22
[1]
Fonte: http://www.portalnikkei.com.br/haicai-brasileiro-62/
(último acesso em 22/12/2016)
[2]
Outras tradições de haicai presentes no Brasil são, a meu ver, legítimas. Mas, refiro-me
sempre ao haicai da escola tradicionalista. É, portanto, do meu entendimento sobre
o ser ou não ser do haicai da escola de
Bashô que escrevo estas considerações.
[3]
Verdade aqui significa, dentre outras coisas: adequação e respeito à realidade
presente, ou seja, ao kigo e à ordem natural das coisas; estar em harmonia com
a natureza, comungando e aceitando com simplicidade suas transformações ao
longo das estações do ano; fidelidade à experiência vivida, em honestidade de
razão e sensibilidade, autenticidade e pureza de sentimento na composição do
haicai.
[4] Transmissão
auricular.
[5]
Citado por Paulo Franchetti em Haikai:
antologia e história. Editora da UNICAMP, 4º ed. Campinas, 2012, p. 28.
[6] Haicai - entrevista a Álvaro Kassab [Jornal da Unicamp - Edição 399 - 16 a 22 de junho de 2008]. Cf. em: http://paulofranchetti.blogspot.com.br/2012/07/haicai-entrevista-alvaro-kassab.html.
[7]
Trilha forrada de folhas – Nenpuku Sato: um mestre de haikai no Brasil.
Seleção, tradução e ensaio de Maurício Arruda Mendonça. Edições ciência do
ocidente, São Paulo, 1999.