GOGA

(Alexas_Fotos - Pixabay)


GOGA

 

 

mãos postas em prece

saúdam o mestre ausente —

céu azul profundo

 

 

A tarde risca sanguínea o céu, para logo esvair-se. Parece um velho de pernas fracas, marchando para o fim. Meu coração sente que tudo é efêmero. Eterno é o instante.

 

imóvel o cipreste

solitário da colina —

outono avançado

 

Para além dos muros deste lugar, a cidade em ritmo delirante ignora a morte nossa irmã. É um desperdício que todo este silêncio não seja sentido pelos que podem senti-lo.

 

velho campo-santo —

folhas de outono macias

sob os meus pés

 

Por três dias busquei o jazigo do mestre Goga. Até que fui auxiliado por um jardineiro ou guarda do cemitério[1] que, ao consultar o livro de registros da administração, levou-me ao local exato. Pude, então, rezar ali.  

 

sobre a sepultura

tênue a luz do sol —

outono fenece

 

Impressionou-me o despojamento da campa do mestre. Simples, como sua vida e poesia o foram. A pedra, lavada pelas últimas chuvas, tinha brilho de austera pureza.

 

das fendas do túmulo

matinho amarelecido —

ah, tarde de maio!

 

Em silêncio, permaneci muito tempo no lugar. Enquanto rezava, uma criaturinha voejou e bateu diversas vezes na minha cabeça, parando rente a mim.

 

pousada na lápide

borboleta de outono —

chora por alguém?  [2]

 

Com passos lentos voltei a casa, agradecido e abençoado. Em minha consideração, Goga e o espírito do haicai.  

 

 

Seishin 清心

(Diário, outono de 2017)


[1] Cemitério do Araçá em São Paulo, capital. Em 2018, o jazigo da família Masuda foi desativado. Os restos mortais do Mestre Goga foram cremados em cerimônia íntima e devolvidos à natureza que ele tanto amou.

[2] Borboletas de outono “são raras em nosso meio. Geralmente pequenas, solitárias, e apresentam aspecto enfraquecido, sem vivacidade. Sensação de grande fragilidade, despertando sentimento de compaixão.” (Natureza – Berço do Haicai: kigologia e antologia. H. Masuda Goga / Teruko Oda. Empresa Jornalística Diário Nippak Ltda. São Paulo, 1996).

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