GOGA
GOGA
mãos
postas em prece
saúdam
o mestre ausente —
céu
azul profundo
A tarde risca sanguínea o céu,
para logo esvair-se. Parece um velho de pernas fracas, marchando para o fim. Meu
coração sente que tudo é efêmero. Eterno é o instante.
imóvel o cipreste
solitário
da colina —
outono
avançado
Para além dos muros deste lugar,
a cidade em ritmo delirante ignora a morte nossa irmã. É um desperdício que todo este
silêncio não seja sentido pelos que podem senti-lo.
velho
campo-santo —
folhas de outono macias
sob os
meus pés
Por três dias busquei o jazigo do
mestre Goga. Até que fui auxiliado por um jardineiro ou
guarda do cemitério[1] que, ao consultar o livro de registros da administração, levou-me ao local exato. Pude, então, rezar ali.
sobre a
sepultura
tênue a
luz do sol —
outono
fenece
Impressionou-me o despojamento da campa do mestre. Simples, como sua vida e poesia o foram. A pedra,
lavada pelas últimas chuvas, tinha brilho de austera pureza.
das
fendas do túmulo
matinho
amarelecido —
ah,
tarde de maio!
Em silêncio, permaneci muito
tempo no lugar. Enquanto rezava, uma criaturinha voejou e bateu diversas vezes
na minha cabeça, parando rente a mim.
pousada
na lápide
borboleta de outono —
chora por alguém? [2]
Com passos lentos voltei a casa, agradecido
e abençoado. Em minha consideração, Goga e o espírito do haicai.
Seishin 清心
[1]
Cemitério do Araçá em São Paulo, capital. Em 2018, o jazigo da família Masuda
foi desativado. Os restos mortais do Mestre Goga foram cremados em cerimônia
íntima e devolvidos à natureza que ele tanto amou.
[2]
Borboletas de outono “são raras em nosso meio. Geralmente pequenas, solitárias,
e apresentam aspecto enfraquecido, sem vivacidade. Sensação de grande
fragilidade, despertando sentimento de compaixão.” (Natureza – Berço do Haicai:
kigologia e antologia. H. Masuda Goga / Teruko Oda. Empresa Jornalística Diário Nippak Ltda. São Paulo, 1996).