FLOR DE FOGO
FLOR DE FOGO
Seishin*
Ah, mosca de inverno
questão de dia ou de hora
seu último instante?
Goga
Transcorridos séculos de história do haicai de Bashô ao nosso
haicai, indago-me se ainda há relevância no que fazemos! Não parecemos
anômalos, na teimosia de um viés tradicionalista deste gênero poético, quando o
tempo atual exige ululantes novidades? Há outros tipos de haicai dignos de
apreço, no Brasil[1] e
em todo o mundo, que muito se distanciam do nosso, e até parecem suscitar maior
interesse artístico, acadêmico, editorial. O mundo do haicai é tão amplo, que
nele coabitam gênios de inclinações diversas, para além dos modismos medianos,
como em quase toda expressão humana, sobremaneira num campo em que muito se
confunde simplicidade com facilidade. As expressões modernas e contemporâneas de
haicai são tantas, inclusive no Japão, que tornam o que chamamos de “haicai
tradicional” um tipo antiquado, visto às vezes como imitação dos clássicos.
Essa é uma maneira elegante de considerarem-nos fora de moda! Não poucas
pessoas, hoje em dia, acham-se de fato a fonte primária do saber, de modo a
desprezar a cultura clássica, as tradições, o que é antigo e advém de conhecimentos
adquiridos por predecessores. Acreditam inventar a roda, com pretensos
vanguardismos, mas não passam de repetidores de extravagâncias simplórias. O
sucesso momentâneo de algumas dessas genialidades – muito ao gosto de leitores
igualmente rasos – será punido, evidentemente, pelo infinito esquecimento que
se segue às coisas fúteis.
Para a vertente haicaística que seguimos, um caráter conservador
se impõe. Isso não exclui significativas transformações de geração a geração. Conservação
não é estagnação, dentro das tradições, pois em tal seara toda forma de não dinamismo
é morte decretada. Recebemos por tradição um conhecimento depurado. O que conta
é o núcleo deste saber, sua quintessência. Esta realidade é o que não se pode
negar ou trair, naquilo que recebemos. E tal herança exigirá do donatário –
aquele a quem é transmitido o conhecimento – certo respeito e um desejo sincero
de tornar-se “digno” do legado, ou seja, apto. É neste contexto que às vezes
aparecem expressões como “mestre” e “discípulo”, em nosso meio. Entrar no jogo
é aceitar as regras. Apenas quando as entender e dominar – com absoluta
naturalidade – alguém poderá eventual e conscientemente rompê-las. Fora disso,
é não ter sido capaz de aprender e, miseravelmente, justificar sua falta de talento ou incapacidade de seguir
certas normas, com o verniz de uma falsa liberdade criativa.
Já dissemos, em algum lugar, que o haicai tradicional brasileiro
não é uma imitação do haicai japonês. É maçante ver como, não poucas vezes, os
que brincam de fazer haicai projetam neles pueris fantasias nipônicas, como se
para ser haicai, o terceto precisasse que lhe enfiassem um bambu, um jardim
oriental, uma rã ou avó japonesa que, de resto, nunca viram ou tiveram. O
haicai deve nascer da experiência imediata. Ele é brasileiro no Brasil, andino
nos Andes e, claro, japonês no Japão.[2]
Não é o poeta que plasma a sua natureza, de modo autorreferente, isto é, à sua
imagem e semelhança ou como mera representação de seu repertório imaginário; é
a Natureza que dita. Um bom haicai acontece quando aquele que o encontra se
torna capaz de tal percepção ou apreensão, sem demasiada interferência. Para um
monge, isso é semelhante a encontrar aquele tesouro escondido no campo ou a
pérola preciosa.[3]
Para muitos de nós, haicai não é apenas um acontecimento
literário, mas um modo de vida. Se algumas vezes surge o interesse de estudo do
fenômeno do haicai tradicionalista, no esteio do que ele significou para os
primeiros imigrantes japoneses do Brasil; como este haicai foi aclimatado por
homens da estatura de Nenpuku Sato e Masuda Goga (mestres cujos nomes devem ser
pronunciados com enorme reverência); como esta linhagem subsiste puríssima em
Teruko Oda, de quem sou discípulo imediato; parece nulo, atualmente, o
interesse acadêmico em torno do haicai tradicional, este que é praticado sobretudo
em grêmios. Ora, do ponto de vista analítico, é compreensível que seja assim. A
considerar de modo imparcial a produção de alguns desses grupos – como se, em
tese, o interesse fosse o de encontrar neles pura arte, inovações, alta
literatura – nada seria mais frustrante que o deparar-se com uma maré de mediocridades,
que é o que não raro se consegue em uma reunião
de haicai, além de uma forma nada convencional, ao gosto ocidental, de “fazer
arte”. Ainda que alguns destes grupos tenham sucessivamente agregado estudiosos
de arte ou haicaístas de indiscutível talento, estão longe de ter como escopo
as glórias literárias.[4]
Portanto, equivocam-se os que pretendem medir-nos a partir de determinados
parâmetros literários ou acadêmicos, ignorando conceitos essenciais exclusivos
do haicai tradicional.
A seguir, destacarei alguns pontos que me parecem pertinentes
– não necessariamente os mais importantes – para o entendimento do haicai a que
me refiro. As considerações que irei tecer são apenas esboços de minha própria
experiência ou síntese pessoal, sem qualquer pretensão de encerrar questões ou
pontificar sobre o assunto.
Simplicidade
O haicai que buscamos é, antes de tudo, despretensioso. Uma
de suas principais características é a simplicidade. É claro que esta
simplicidade referida diz respeito sobretudo ao modo, pois não se pode negar
que o haicai tradicional impõe ao seu adepto, para além do conteúdo de vida, o
aprendizado de uma série de técnicas demasiado complexas, dominadas somente
após muitos anos de disciplina, estudo e prática. A sua essência, no entanto, é
a simplicidade, sem a qual não se alcança coisa alguma que mereça o nome de
haicai. E não poderíamos esperar algo diferente de um haicai que,
particularmente no Brasil, foi delineado por pessoas simples, de mãos calejadas
pelo labor do campo. Como não se comover com a imagem de um dos maiores gênios
do haicai do século XX, Nenpuku Sato, feito humilde agricultor? O nosso haicai
tem cheiro e sabor de café, de cafezal, com flor, fruto e segredos bem
guardados que não cabem em xícaras tomadas displicentemente. Voltemos ainda
muitos séculos e consultemos os mestres do Japão! Vejamos se ali não se diz desta
simplicidade! Por isso, o que escrevemos busca despojar-se do supérfluo, lançar
para fora toda vaidade e ser simples – simples em atitude, palavras, imagens,
conceitos. Rechaçamos o que não é a verdade. Buscamos com isso agregar precisão
e objetividade ao texto, sem perder o que de sutil e delicado há nas coisas.
Sinceridade
Este haicai possui tremenda força moral, uma vez que tangencia
os domínios do espírito humano. Mas, entenda-se, isso não se confunde com moralidade
em seu texto ou em sua natureza intrínseca. O haicai tradicional é notadamente
amoral. Não cabe ao haijin opinar ou emitir juízo de valor sobre as coisas.
Cabem aqui coisas que chamamos pelos nomes de sinceridade de
coração, lisura de caráter, pureza de atitude, fidelidade ao próprio caminho do
haicai, comunhão com a natureza.
Um bom haicai se impõe pela capacidade de tocar as pessoas.
Ele traz, em sua essencial incompletude, o condão de chacoalhar algo adormecido
naquele que o encontra: naquele que o escreve, naquele que o lê.
O sentimento que nasce da leitura de um haicai é haicai. Em
sua sinceridade, ele apenas projeta-se no espelho da alma e, se o espelho
estiver apto, o que daí provém é diálogo e é haicai. As palavras “espelho” e
“alma” são apenas muletas, para explicar o que eu não sei dizer de outro modo. Pois
tudo isso é puro, natural e simples como a resposta das caatingas da minha
terra natal, após as chuvas.
Caberia também, nesta sinceridade, uma porção de shasei 写生 do mestre Masaoka Shiki? Sim, porque
o esboço da natureza em simples palavras, e a pura descrição das coisas tais
como elas são, nunca deixou de ser uma das principais balizas do haicai
tradicional.
Mas ao escrevermos haicai, ainda que ensejemos mínima
interferência sobre os fenômenos e máxima fidelidade à descrição, isso não é
sempre ou totalmente possível. Às vezes, para expressar a verdade do haicai, obrigamo-nos
a romper limites da própria “realidade” – vulgarmente compreendida – lançando
mão de recursos considerados menos ortodoxos, mas, a depender do contexto,
legítimos. Por exemplo, o uso de uma metáfora ou a aplicação de uma qualidade
antropomórfica a determinados seres da natureza são terminantemente
desaconselhados e até reprováveis; mas, quando bem empregados, se viabilizam
uma maior compreensão do quadro em si e da verdade do haicai, tornam-se
toleráveis. É neste sentido, penso eu, que a lua de outono “fala” e a de
inverno “é muda”, na antiga tradição. Com isso, não se exprime uma realidade
factual, evidentemente, mas sensação ou emoção.
Há de se considerar, ainda, que a descrição em si, pura, sem
a contaminação de emoções ou do próprio espírito humano, tornaria vazio de
sentido o ato de escrever haicai, quando não absolutamente desnecessário. Dizer
o óbvio por dizer o óbvio, não é próprio da poesia em nenhum dos mundos
conhecidos. A descrição do que consideramos real, no mundo dos fenômenos,
levada ao extremo, sem qualquer impacto ou elaboração humana, ainda que, por
consequência disso mesmo, limitante, levaria o haicai ao esvaziamento de seu
próprio sentido de ser e existir, inclusive como obra de arte. Se em absoluto
não pudéssemos interferir no quadro da natureza, ao escrevermos haicai, melhor
seria não escrevermos nada, deixando as coisas entregues a si mesmas, para que
falassem por si mesmas, em estado não poético. Mas é porque também somos
natureza que podemos interferir, sem interferir. De fato, a perfeição, o que
definitivamente não é inerente ao haicai escrito, seria o haicai de silêncio
absoluto, onde o espírito humano e de todas as coisas regressassem à unidade
original, a não caber qualquer palavra humana ou reflexão. Mas isso foge da
competência deste artigo, e não é matéria de meu interesse agora.
Kigo
Kigo – a palavra da estação – é imprescindível no tipo de
haicai que praticamos. Ele foi o mais insistente apelo do mestre Goga aos
brasileiros, norma suprema, quando lhes transmitiu, pela primeira vez, da fonte
original, os segredos do haicai tradicional, agora feito a partir da natureza e
dos costumes do Brasil, sentido pela alma dos brasileiros e escrito em
português.[5]
O kigo é a alma do haicai, sua sustentação. É comunhão com os
ciclos da vida e suas transformações. É dele que deriva a força extraordinária desses
pequenos poemas. Não é apenas uma palavra-chave, que define em qual das
estações está o haicai. É através dele que o texto, por mais simples que seja,
penetra na alma humana e estabelece diálogo.
Para não me estender mais e porque já tratei deste assunto em
outros artigos, gostaria de transcrever um ensinamento lapidar do mestre Goga:
Cerne
do poema e responsável por sua concisão, sem o kigo, não há o haicai. / Por
outro lado, sendo fruto de observação atenta e sensibilidade poética, o kigo
não pode ser explanado pelo raciocínio. / (...) não se trata de simples
nomenclatura poética para designar o tempo, a fauna, a flora ou as vivências de
cada estação – é o precioso produto sensorial colhido no cultivo do amor à
Natureza. / (...) Talvez eu possa esclarecer melhor o caráter do kigo da
seguinte maneira: o ipê, propriamente dito, não é kigo – é apenas denominação,
o nome de uma planta. / Mas quando o poeta descobre na beleza de seu ciclo –
floração, desfloração, perda das folhas – a transitoriedade, o ipê se
transforma em kigo, pois o caráter do kigo é a própria transitoriedade.
Eu, contudo, a despeito da ortodoxia da escola
tradicionalista, não excluo em absoluto a possibilidade de algum haicai
tradicional sem kigo. Isso se dá em nível muito avançado do caminho. Sem dúvida
é um fenômeno raro sob nossos ditames, mas quando há sabor de haicai, quem sabe
haicai, sabe.
Leveza
Leveza em haicai é ver as coisas como elas são e alcançar a
beleza dessa verdade, sem afetação.
O olhar de um haijin deve ser puro, destituído de
preconceito. Crianças, quando escrevem haicais, não poucas vezes conseguem ser
mais precisas e melhores que adultos.
Não há nada que não possa ser abordado por este gênero
poético. Se alguns assuntos são evitados em haicai, não é porque são proibidos,
mas dispensáveis.
É leve um haicai onde nada falta e nada sobra em si mesmo, isto
é, em seu conteúdo comunicante. O professor Paulo Franchetti diz que “haiku é a
arte de, com o mínimo, obter apenas o suficiente”.[7]
Imbuídos neste espírito de leveza, somos capazes de ver o que
há de essencial nas coisas mais simples. Esta leveza é uma penetração no
mistério delas, pois só quando tocamos o coração das coisas e de algum modo nos
tornamos elas próprias, é que o haicai se dá. Trata-se, portanto, de perceber a
beleza às vezes não tão evidente em tudo que existe, sobretudo nas coisas mais triviais.
Caráter Coletivo
O haicai tradicional é melhor compreendido se analisado em
sua característica fenomênica de grupo de aficionados, manifestação coletiva,
tanto dos encontros, como das publicações em antologias, deste ou daquele
grêmio, ao redor de um ou outro mestre. Isso é fato desde os primórdios da
história do haicai e está, por assim dizer, atrelado ao seu desenvolvimento.
Claro que em outro momento, deslocando-se deste coletivo,
deparamo-nos com nomes de uns poucos que imprimem caráter muito pessoal no
haicai que fazem, criando o que podemos chamar de estilo próprio. É graças a
isso que conseguimos identificar peculiaridades, traços inconfundíveis e até
inimitáveis, nas obras deste e daquele haijin, mesmo quando versam sobre os
mesmos temas.
Hobby
O haicai pode ser considerado um hobby, e de fato o é para a
maioria dos frequentadores de um grêmio tradicional e demais entusiastas. Adotá-lo
como um hobby, forma de lazer, passatempo, distração, não é a mesma coisa de tê-lo
como dô. Mas aqui já há benquerença e indiscutíveis méritos, além de muitas
outras vantagens. O haicai torna-se um saudável “vício”, gera socialização. E é
inegável sua capacidade de intercâmbio entre povos e culturas, fortalecendo
vínculos de amizade e fraternidade.
Durante a Segunda Guerra Mundial, quando foram rompidas as
relações diplomáticas entre o Brasil e o Japão, as tensões aqui se tornaram especialmente
insuportáveis entre os brasileiros e os japoneses das colônias. Não obstante, colocando-se
acima das divisões da Guerra, os haicaístas de ambos os lados continuaram de
mãos dadas. E quando todas as publicações de língua japonesa foram proibidas em
nosso país, fechando-se suas empresas jornalísticas e impondo-se hostil silêncio
os japoneses, haijins brasileiros divulgaram ostensivamente haicais na imprensa
e através de livros, mesmo sob protestos.[8]
Dô
Por fim, há outra forma de relação com o haicai que é a
atitude de quem faz de sua vida uma vida de dedicação a esse poema, não apenas
no disciplinado estudo e assimilação das práticas, mas na incorporação profunda
do modo próprio de ser do haicai. Isto é tê-lo como caminho, dô. Em tal
condição, o haicai torna-se um modo de sentir a vida, um modo próprio de viver,
intrínseco à pessoa que a ele se dedica. Um haijin deste nível é, sem dúvida,
um virtuose. Assemelha-se ao músico que já não se dissocia da música, lendo bem
qualquer partitura e discernindo com ouvido absoluto todos os sons da natureza.
Não há, em meu entendimento disso, qualquer reivindicação sectária, religiosa
ou filosófica, embora possa-se dizer que para os que encaram o haicai sob o
prisma de dô, ele se torna um estado permanente de espírito. Para a pessoa que
o tem como caminho de vida, o haicai está em tudo. Assim, não é possível saber
se escolhemos o caminho ou o caminho nos escolhe. Mas isso que digo é linguagem
puramente enfática, para falar de algo difícil de explicar, ainda que não muito
difícil de entender quando o experimentamos.
Dizem que esta é uma sentença muito antiga do Oriente: “quando
o discípulo está pronto, o mestre aparece!”...
*
O haicai que praticamos é melhor entendido se visto, em grau
mais elevado de comprometimento, como um dô, ou pelo menos como um hobby,
diversão amistosa de aficionados. Ele não tem a pretensão
de ser obra prima, não é um pequeno ninja a dar golpes de inventividade nas
sensibilidades alheias, não quer ser inteligente ou originalíssimo. Quando
trilhamos o caminho do haicai, experimentamos sincera alegria e gratidão até
quando fracassamos no haicai que sem sucesso tentamos escrever. Esta alegria
humilde e a reverência que dela brota, são a divisa que separa um verdadeiro
haijin dos presunçosos. O haicai é, portanto, um impulso vital, um ato puro de
gratuidade, uma alegria pacificada, sem ênfase. Ele é simples como a flor do
campo, o raio e o trovão, uma gota de orvalho sobre a relva, um banho de sol em
dia frio...
Hanabi 花火 em japonês é a palavra comum para designar o que em nossa
língua chamamos de “fogos de artifício”. Escreve-se com dois ideogramas, o
kanji de “flor” e o kanji de “fogo”. Literalmente, a palavra exprime a ideia de
fogos de artifício como “flores de fogo” no céu. Esta imagem talvez ajude a
ilustrar uma das tantas facetas do haicai. O haicai que buscamos alcançar,
embora não seja pirotecnia destinada a impressionar ou recrear a atenção, assemelha-se
à beleza inútil e efêmera de um “hanabi”. É uma luz fugidia no céu da existência humana, um risco meteórico, um
rasgo de lucidez na noite escura de nossas
ilusões.
_________________
* Seishin 清心 é o haimei, nome haicaístico, de ANTONIO FABIANO, padre carmelita
descalço e poeta brasileiro.
(Artigo publicado em: Brasil Nikkei Bungaku nº 64. São Paulo: Associação Cultural e Literária Nikkei Bungaku do Brasil, março de 2020, pp. 69-76.)
[1]
A história do haicai no Brasil é multifacetada e tem mais de um século, em suas
diversas vertentes. Interessantes registros disso estão em “O Haicai no Brasil”
de H. Masuda Goga, traduzido para o português e publicado pela Aliança Cultural
Brasil-Japão em 1988. Igualmente indispensáveis são os trabalhos do Prof. Paulo
Franchetti, na abordagem e absoluto domínio crítico deste assunto.
[2]
Houve um tempo em que se distinguiu no Brasil e às vezes ainda se faz – por
necessidade didática do momento histórico da pesquisa ou preciosismo – “haicai”
e “haiku”, sendo este último termo exclusivamente usado para referir-se ao
haicai escrito em japonês, e aquele outro para o haicai feito em português,
grafado às vezes também como “haikai”. Considero, hoje, essa distinção obsoleta.
Haicai é como se convencionou dizer em português o que no Japão e em todo o
resto do mundo é chamado pelo nome de “haiku”. Em minha fala e em meus escritos,
“haicai”, “haikai” ou “haiku” têm igual valor e referem-se à mesma coisa.
[3]
Alusão ao Evangelho de Mateus 13, 44-46.
[4]
Nada seria mais repulsivo, para os que seguem essa tradição, que fazer haicai
com reivindicação de aplauso ou chancela intelectual.
[5]
Nenpuku Sato, de quem Goga foi discípulo imediato, embora tenha assimilado com
perfeição a natureza do Brasil e seus kigos, ensinando o mesmo a milhares de
discípulos japoneses das colônias e escrevendo indiscutíveis haicais
brasileiros, jamais o fez em português, mas sempre em sua língua materna. Este outro
grande passo será dado pelo mestre Goga, que se acercará de discípulos
brasileiros e ensinará aos mesmos, pela primeira vez, o haicai da “escola de
Bashô”, em língua portuguesa. É possível supor que, sem a atuação de Goga, o
haicai tradicional entre nós desapareceria com o fim das colônias, passando ao
largo da história de nossa literatura e das demais vertentes de haicai
conhecidas no Brasil.
[6]
Cf. H. Masuda GOGA, em prefácio de “Janelas e Tempo” de Teruko Oda. São Paulo:
Escrituras, 2003.
[7]
“Já se disse que o haiku é a arte de dizer o máximo com o mínimo. Entretanto, a
verdade é mais sutil: haiku é a arte de, com o mínimo, obter apenas o
suficiente.” Esse notável fragmento de teoria do haiku foi extraído do prefácio
de Paulo Franchetti ao livro “Respirar: 101 haiku” de David Rodrigues. Vila
Nova de Gaia: Corpos Editora, 2008.
[8]
Menção a isto se faz em “O haicai no Brasil” de H. Masuda GOGA, Editora
Oriento, São Paulo, 1988. Aí também é citada a crítica mordaz de Agripino
Grieco, publicada no Diário de São Paulo em 17 de novembro de 1946: "Por
que os poetas brasileiros, ao invés de imitar haikais, não imitam japoneses que
praticam o harakiri?".