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LUA NUBLADA - Seishin

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  (Imagem Carolina - Pixabay) lua nublada (PRIMAVERA)   nesta travessia quantas lembranças da infância — rio de primavera   estalido brusco — entre as folhas do jardim uma rã em fuga   tão leve... levíssima — a sementinha de ipê parece ter asa   marcha nupcial — o frescor da primavera no buquê da noiva   no arranjo floral o tremor das mãos da avó — broto de roseira   mar de primavera — a cidade litorânea parada no tempo   cantochão suave — na alameda do mosteiro os velhos salgueiros   casebre à venda — um lírio branco a pender no caos da cidade   dia ensolarado — no pomar das cerejeiras a folhagem tenra   feira popular — na flor e sobre os pães doces abelhas nativas      no salgueiro encurvado leveza quase palpável — chuva de primavera   chuva-de-caju — nas pontas do guarda-chuva biqueiras de luz   olhos no ...

O CRAVO NO PEITO - Seishin

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  (Imagem Petra - Pixabay) O Cravo no Peito é o nome da coleção de haicais que se segue. Foi publicado pela primeira vez na revista Brasil Nikkei Bungaku , após o autor ter recebido o Prêmio Yoshio Takemoto. [1] Naquela ocasião foi também publicado no livro Celebração , edição comemorativa do cinquentenário da Associação Cultural e Literária Nikkei Bungaku do Brasil. [2] Ceia de Ano Novo — Sabor de felicidade Nos pratos da mãe.   Caminho da choça — Suavidade de luz Sobre as folhas novas.   No cimo do álamo Uma ave solitária — Tarde de verão.   De sutil perfume E notável elegância: O cravo no peito   Apenas o vento E a minha solidão — Noite de agosto. [1] O Prêmio Yoshio Takemoto, conferido pela Associação Cultural e Literária Nikkei Bungaku do Brasil, foi talvez o mais importante e longevo prêmio de haicai da língua portuguesa. Seishin o recebeu em 2015, pelo Cravo no Peito. O Cravo no Peito foi publicado pela p...

[LEITURA CRÍTICA DE HAICAI]

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  Capa: Ulisses Góes - Ilustração da Capa: Rafael Pitta - Editora Mondrongo As descoloridas pinceladas dos haicais de Paulo Franchetti Paulo Franchetti é, sem dúvida, um dos melhores teóricos contemporâneos de haicai. Talvez por isso, e dada a grandeza de sua contribuição em língua portuguesa à teoria do haiku [n.1] , sua produção haicaístico-poética autoral é muitas vezes relegada a segundo plano. Embora tenha publicado haicais em algumas importantes antologias e em pelo menos três livros solos – dentre eles  Oeste  (Ateliê Editorial: Cotia, 2008), cujos poemas foram traduzidos para o japonês por ninguém menos que H. Masuda Goga –, tornar-se conhecido como poeta desse gênero literário nunca pareceu ser nem de longe sua ambição. Ao contrário disso, escreve e publica seus haicais como e quando quer, sem se importar em repetir alguns deles em mais de um livro; ignora conscientemente normas que, como exímio estudioso de haiku, conhece bem e aplica de modo eficiente na anális...

FLOR DE FOGO

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(Imagem Pexels - Pixabay)   FLOR DE FOGO Seishin*   Ah, mosca de inverno questão de dia ou de hora seu último instante? Goga   Transcorridos séculos de história do haicai de Bashô ao nosso haicai, indago-me se ainda há relevância no que fazemos! Não parecemos anômalos, na teimosia de um viés tradicionalista deste gênero poético, quando o tempo atual exige ululantes novidades? Há outros tipos de haicai dignos de apreço, no Brasil [1] e em todo o mundo, que muito se distanciam do nosso, e até parecem suscitar maior interesse artístico, acadêmico, editorial. O mundo do haicai é tão amplo, que nele coabitam gênios de inclinações diversas, para além dos modismos medianos, como em quase toda expressão humana, sobremaneira num campo em que muito se confunde simplicidade com facilidade. As expressões modernas e contemporâneas de haicai são tantas, inclusive no Japão, que tornam o que chamamos de “haicai tradicional” um tipo antiquado, visto às vezes como imitação...

GOGA

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(Alexas_Fotos - Pixabay) GOGA     mãos postas em prece saúdam o mestre ausente — céu azul profundo     A tarde risca sanguínea o céu, para logo esvair-se. Parece um velho de pernas fracas, marchando para o fim. Meu coração sente que tudo é efêmero. Eterno é o instante.   imóvel o cipreste solitário da colina — outono avançado   Para além dos muros deste lugar, a cidade em ritmo delirante ignora a morte nossa irmã. É um desperdício que todo este silêncio não seja sentido pelos que podem senti-lo.   velho campo-santo — folhas de outono macias sob os meus pés   Por três dias busquei o jazigo do mestre Goga. Até que fui auxiliado por um jardineiro ou guarda do cemitério [1]  que, ao consultar o livro de registros da administração, levou-me ao local exato. Pude, então, rezar ali.     sobre a sepultura tênue a luz do sol — outono fenece   Impressionou-me o despojamento da campa do m...